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Opinião
Domingo - 28 de Fevereiro de 2021 às 09:19
Por: Milson Evaldo Serafim

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Até bem pouco tempo, raras exceções, todos concordavam que lugar de criança era na escola. Se voltarmos uma ou duas décadas diriam ainda que lugar de estudar é na escola. Começou a pandemia da Covid-19 e as coisas fugiram da normalidade. Pais, estudantes, professores e profissionais ligados ao ensino tiveram que buscar alternativas para manter o ensino diante das limitações de convívio que a pandemia nos meteu.

Aquilo que chamávamos simplesmente ensino precisou ser adjetivado para se diferenciar das novas propostas de ensino durante o período da pandemia. Ensino tradicional, ensino presencial, ensino na escola... em substituição, veio o ensino remoto com suas inúmeras variações. Aprendemos a falar ensino remoto com aulas síncronas ou aulas assíncronas, se fossem programas de tv diríamos, simplesmente, programa ao vivo e programa gravado.

Aqui vale acrescentar uma informação, já que à primeira vista o ensino remoto não parece algo novo, pois no ensino superior brasileiro já temos bem consolidada a modalidade EaD (ensino a distância). Não é a mesma coisa. A EaD pressupõe a existência de um ambiente virtual de aprendizagem (AVA), com horário de acesso flexível, já o ensino remoto, no contexto que estamos tratando aqui seria uma tentativa de reproduzir as aulas presenciais, utilizando plataformas de streaming, ou, em uma terminologia do momento, tecnologias da informação e da comunicação (TICs). O professor ministra sua aula (síncrona ou assíncrona), próximo do que faria se fosse presencial, ou envia apostilas quando o estudante não dispõe do aparato para este tipo de aula.

No ensino híbrido, a centralidade é do aluno. A personalização do ensino é base, respeita-se a forma de aprender do estudante e um mesmo tema pode ser aprendido de maneiras diferentes com fontes de conteúdo diferentes

O ensino híbrido é diferente do ensino remoto e da EaD. No ensino híbrido o estudante é o centro do processo. Na definição de Lilian Bacich, uma referência deste tema no Brasil, “o Ensino Híbrido tem como foco a personalização, considerando que os recursos digitais são meios para que o estudante aprenda, em seu ritmo e tempo, que possa ter um papel protagonista e que, portanto, esteja no centro do processo”.

A sala de aula tradicional pressupõe que todos aprendem da mesma maneira, pois a mesma aula é ministrada para 30, 40 ou até mais alunos de uma só vez. No livro “Você, seu Filho e a Escola: Trilhando o Caminho para a Melhor Educação”, o autor Ken Robinson remonta este modelo ao período da revolução industrial, no século XIX, por razões de desenvolvimento econômico, os governos precisavam “formatar” (dar forma) a sua força de trabalho, pois uma força de trabalho “bem educada” era vital para o crescimento da economia industrial. Daí o modelo de sala de aula atual foi o mais adequado. Este modelo foi consolidado na expansão da educação pública, para atender objetivos de formatação social e cultural. Aqui, nesta sala de aula, o professor é o centro.

No ensino híbrido, a centralidade é do aluno. A personalização do ensino é base, respeita-se a forma de aprender do estudante e um mesmo tema pode ser aprendido de maneiras diferentes com fontes de conteúdo diferentes. O conceito de turmas organizadas por idade, por tempo na escola deixa de ser a base organizacional, pois o momento em que cada aluno está pronto para iniciar um novo tema é diferente. No ensino híbrido o estudante tem autonomia dentro de seu itinerário formativo. Ao menos uma parte do que será estudado é o aluno que escolhe segundo seu interesse.

É demasiadamente restrito chamar um ensino alternado, que combina aulas presenciais e aulas remotas como ensino híbrido. O autor Michael Horn, no livro “Blended: usando a inovação disruptiva para inovar a educação” alerta para o uso inadequado do termo ensino híbrido, como por exemplo, quando governos começaram equipar salas de aulas com dispositivos e programas de computador e chamar isto de ensino híbrido.

O ensino híbrido depende do uso das TICs. Plataformas como Kham Academy, com mais de 100 milhões de usuários ao redor do mundo, e tantas outras, especialmente aquelas que dão feedback em tempo real do desempenho do aluno durante seu estudo online, são importantes. Porém, o ensino híbrido pode começar bem mais simples, quebrando a disposição em fileiras das cadeiras e criando um círculo que torna o aluno ativo no processo de aprendizagem.

Podemos usar as mudanças que aconteceram em decorrência da pandemia e as experiências adquiridas com as TICs e com o ensino remoto para discutirmos um modelo de ensino híbrido, se desejamos avançar para o ensino híbrido ou para outro modelo que oportunize aos estudantes aprender as habilidades requeridas no Século XXI. Só não devemos nos apropriar de um nome, que remete a algo que ainda não experimentamos.

MILSON EVALDO SERAFIM é professor do Instituto Federal de Mato Grosso, IFMT Campus Cáceres – Prof. Olegário Baldo.



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