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Opinião
Quarta - 19 de Janeiro de 2022 às 10:15
Por: João Edisom de Souza

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Quanto acolhimento e quanto amor cabem em um sorriso? Olhar para uma pessoa e ser recebido com um sorriso nos conduzem a uma porta que se abre para a aceitação, para compartilhar as nossas histórias.

Um sorriso é comunhão, é aconchego. “Conhecemos um homem pelo seu riso; se na primeira vez que o encontramos ele ri de maneira agradável, o íntimo é excelente”, Fiódor Dostoiévski.

Este mesmo riso quando praticado em favor de ideologias ou de forma comercial, oriundo da comédia e da piada para escrachar e estender o sorriso até a gargalhada, não traz junto nenhum benefício, ao contrário, vem com a dor, a discriminação, o menosprezo e a desvalorização cultural e/ou humana.

“Por detrás da alegria e do riso, pode haver uma natureza vulgar, dura e insensível. Mas, por detrás do sofrimento, há sempre sofrimento. Ao contrário do prazer, a dor não tem máscara”, Oscar Wilde.

O Brasil é um berço de grandes comediantes e talvez por isso de tanto rir do nosso próprio cotidiano vergonhoso é que relativizamos a corrupção, o autoritarismo, o abuso de autoridade, os corruptos, os assassinos e as maldades. Até estabelecemos empatia com o crime e com a bandidagem.

A piada (humor) nasceu para fazer rir, mas o sorriso a qualquer preço por si só não significa alegria para todos. Quando está fora do contexto ético ou moral, termina por ser reafirmação da supremacia de alguém, ou de uma cultura, sobre a outra. Assim como não é legal rir de quem ainda precisa lutar para ser reconhecido, também não é salutar rir das desgraças provocadas por autoridades e por governantes.

Tornou-se comum rir do português, do negro, da mulher, da loira, do índio, dos pobres, dos homossexuais, das pessoas com determinadas deficiências ou necessidades especiais, assim como dos crimes e de seus autores.

De tanto rir do próprio cotidiano vergonhoso é que relativizamos corrupção

Usar como desculpa que o riso é forma de protesto ou de denúncia não cola, porque ele termina por relativizar o crime e o criminoso gerando a aceitação. Ou no caso das discriminações e preconceitos, o riso não faz doer menos em quem já está sofrendo.

Quando conto piada sobre um “louco”, pode ter certeza que o alcance da denúncia é infinitamente menor que a dor causada em quem tem que conviver diariamente com esta patologia, seja ele paciente ou os seus no entorno.

Faço este preambulo para dizer que não há nada mais sério no convívio social que a política. Ela salva ou mata, não tem meio termo! E rir de malfeitos de autoridades e de políticos e das políticas danosas não faz melhorar em nada a vida das pessoas, muito pelo contrário, banaliza a relevância do crime e do criminoso. O Stand Up, o meme, a teatralização dos vídeos e dos ticktoks da vida terminam por humanizar o mal feitor e relativizar o crime.

É histórico o humor feito com políticos e com a politica brasileira, herança da cultura portuguesa, onde boa parte da sociedade confunde o que é realidade e o que é ficção. Isso despolitiza a sociedade fazendo com que a mentira (fake news) seja aceita e até defendida como liberdade de expressão.

Tudo isso transforma o eleitor em mero torcedor apaixonado no a favor e no contra e nunca nos resultados práticos e objetivos. Afeta diretamente o voto, pois igualam os bons e os maus, o cientista e o ignorante, o ladrão e o honesto.

Isso não invalida nem o riso que proporciona a alegria sadia e nem o humor enquanto cultura de entretenimento, desde que feito dentro dos princípios éticos. Como falou o grande Charles Chaplin, “creio no riso e nas lágrimas como antídotos contra o ódio e o terror”.

Que a gente não perca a esperança que nutre nem o riso que alimenta. Não percamos o abraço que aquece e nem as palavras que salvam. Muito menos o afeto que transborda. Que a gente não perca a boniteza de sorrir com o olhar no primeiro bom dia e nem no até outro dia. É diante da pureza das almas e da simplicidade que é a vida se constrói.

João Edisom de Souza é analista político.



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