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Opinião
Sexta - 17 de Dezembro de 2010 às 10:26
Por: Dirceu Cardoso Gonçalves

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“O povo necessitado, precisa um salário novo; mais baixo pro deputado, mais alto pro nosso povo”. A frase compõe o segundo verso da música “Dona Maria Teresa”, de 1963, onde o menestrel Juca Chaves, com sua festejada sátira, pedia para a primeira dama do país dar alguns recados ao então presidente da República. Há quase meio século, sua reclamação era de que o deputado ganhava muito e o povo ganhava muito pouco. O tema é recorrente e, se tivesse sido escrito nos dias de hoje, continuaria atualíssimo. Especialmente depois do grande trem da alegria que o Congresso Nacional fez circular na última terça-feira, ao votar o reajuste dos salários dos deputados de R$ 16,5 mil para R$ 26,7 mil mensais, equiparando-os aos dos ministros dos tribunais superiores.

Além dos deputados e senadores, beneficiam-se do reajuste o presidente da República (que até hoje ganha R$ 11.240,21 e será reajustado em 133,96%) o vice-presidente e os ministros (que terão reajuste de 148,63%) e todos os deputados estaduais das 27 unidades federadas (credores de até 75% do que recebem os federais) e os vereadores dos 5566 municípios brasileiros, cujos salários podem variar de 20 a 75% do que ganham os deputados estaduais. Será um grande rombo nos cofres públicos que comerão boa parte do dinheiro que poderia ser aplicado em serviços para a população. E o mais interessante é que, ao votarem essa grande benesse, em momento algum os dignos representantes do povo questionaram o impacto que sua aplicação poderá provocar aos cofres da União, dos Estados e dos municípios.

Os espertos congressitas – lá não chega bobo, já dizia o decano Ulysses Guimarães – podem até ter direito a esse reajuste de 61,8% em sua folha salarial. Mas será muito difícil para, apesar do seu traquejo pessoal e eleitoral, conseguirem olhar na cara do eleitor, especialmente do aposentado, que terá apenas 5% porque o governo irresponsável faz cortezia com o chapéu alheio e lança na conta da Previdência Social os proventos que resolveu pagar a trabalhadores rurais, perseguidos políticos e uma grande grama de indivíduos que não contribuíram para a formação do bolo. Se o governo concordou em pagar essa gente, teria de fazê-lo às expensas do Tesouro, jamais com o sacrifício da Previdência e com o suor daqueles que trabalharam a vida toda a hoje vêem seus proventos sucateados e reduzidos a níveis de esmola.

Seria muito bom que todo eleitor nunca se esquecesse do nome daqueles em quem votaram em todas as eleições para, num momento como estes, cobrá-los e exigir, pelo menos, tratamento igual ao trabalhador, ao aposentado e ao povo em geral. Já que o o deputado (representante do povo) e todos os utilizam seu índice de reajuste tiveram 61,8%, nada mais justo do que todo brasileiro – trabalhador privado, funcionário público, aposentado e até os autônomos - reivindicar esse mesmo percentual junto às suas fontes de rendimento. Sem choro nem vela.

Até o Juca Chaves – que nas últimas eleições tentou mas não conseguiu eleger-se deputado federal – poderia recuperar sua pregação de 1963 e continuar cobrando salário “mais baixo pro deputado, mais alto pro nosso povo”. Questão de dignidade e, até, de humanidade...


Tenente Dirceu Cardoso Gonçalves – dirigente da ASPOMIL (Associação de Assist. Social dos Policiais Militares de São Paulo)

aspomilpm@terra.com.br  



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