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Sexta - 04 de Abril de 2014 às 01:38
Por: Darwin Júnior

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Reprodução
Operários que trabalham na contruação da Arena Pantanal foram 'segregados' na inauguração do estádio, segundo jornalista do R7
Operários que trabalham na contruação da Arena Pantanal foram 'segregados' na inauguração do estádio, segundo jornalista do R7

Falar da Arena Pantanal parece estar rendendo muito a jornalistas da imprensa nacional. Depois do blogueiro Paulo Vinicius Coelho, o PVC (ESPN), que afirmou ter levado um 'susto' com a cidade em obras e ainda questionou a capacidade de Cuiabá para sediar jogos da Copa do Mundo (veja matéria aqui), nesta quinta-feira foi a vez do jornalista Cosme Rímoli, que tem um blog no portal R7 disparar pesadas críticas de falhas verificadas durante a inauguração da Arena Pantanal, ocorrida na noite desta quarta-feira (2), com o jogo Mixto x Santos. Rímoli aponta uma 'segregação' com os operários que construíram o estádio e enfatiza que a Arena Pantanal envergonha o país.

O bloqueiro do R7 foi ainda mais duro e incisivo que PVC. Ao avaliar o estádio de Cuiabá para a Copa do Mundo, ele aponta a construção de um 'elefante branco' para uma cidade com fraquíssimo futebol. Com um custo de R$ 570 milhões do dinheiro público, Rímoli vê o estádio como um 'exagero criminoso' para apenas 11 dias de serventia na Copa. O jornalista fala que 'a sorte reservou partidas sem destaque algum do Mundial para a cidade' e que depois disso, 'acabou a Arena Pantanal'.

Pontuando inúmeras falhas que vão desde iluminação, bilheterias, acessibilidade e goteiras, até o resultado do jogo de estreia, que ficou no zero a zero, o jornalista ainda destacaria o pior erro, com uma comparação à escravidão. Fazendo uma alusão à segregação racial, Rímoli denuncia que os operários que receberam ingressos para assistir ao jogo inaugural, foram 'separados dos torcedores normais'. Cerca de 1.200 trabalhadores, com suas famílias, teriam sido colocados para sentar no cimento.

A assessoria de imprensa da Secopa (Secretaria Extraordinária da Copa) prometeu averiguar a situação e esclarecer ainda nesta quinta-feira (3) sobre a questão da distribuição de ingressos e vagas para os funcionários da Arena Pantanal.

Confira a publicação do jornalista Cosme Rímoli nesta quinta-feira, através de seu blog no portal R7:

Vá ao cinema.

"12 anos de Escravidão" é um ótimo filme.

Não vou esmiuçar o enredo.

Mas peço, se atender a minha recomendação, um favor.

Reparar nas pessoas quando as luzes do cinema forem acesas.

A revolta pela maneira com que os escravos eram tratados.

Chibatadas à parte, vale se fixar na diferenciação.

As famílias abastadas do Sul dos Estados Unidos eram rígidas.

Os negros não podiam entrar sem ordem na 'casa grande'.

Que usassem sua senzala.

Mesmo nos cultos religiosos, havia a separação aos escravos.

Cada um do seu lado.

Sem proximidade.

Mesmo com o fim da escravidão, a diferenciação permaneceu.

A segregação continuou nos Estados Unidos até por volta de 1960...

Há pouco mais de 50 anos havia lugares nos ônibus, banheiros, escolas para negros.

Os brancos não deveriam casar com negros.

Simples namoros entre 'casais mistos' eram considerados estupros se o homem fosse negro.

Haviam bebedouros para crianças brancas nos parques de diversão.

As negras não podiam se aproximar.

Líderes como Martin Luther King, Malcom X enfrentaram o sistema.

A luta foi terrível, sangrenta.

Principalmente no Sul do país.

Onde, não por acaso, a verdadeira história de '12 anos de Escravidão' se passa.

Martin e Malcom mobilizaram os Estados Unidos para acabar com a segregação.

Morreram assassinados, mas conseguiram seu intento.

Hoje qualquer tipo de diferenciação é denunciado e punido exemplarmente.

Esqueça por um momento dos Estados Unidos.

Pense no Brasil, no Mato Grosso, na inauguração da Arena Pantanal ontem.

2 de abril de 2014.

Elefante branco assumido para 40 mil lugares.

Com o futebol fraquíssimo de Cuiabá, o estádio é um exagero criminoso.

Custou até agora R$ 570 milhões.

Exatos 100% do dinheiro público.

Terá serventia garantida por 11 dias.

Sediará quatro jogos da fase de classificação.

A sorte reservou partidas sem destaque algum.

Chile x Austrália, Rússia x Coreia do Sul...

Nigéria x Bósnia-Herzegovina e Japão x Colômbia.

O primeiro jogo, entre chilenos e australianos, será no dia 13 de junho.

O último, entre japoneses e colombianos, dia 24 de junho.

E acabou a Copa do Mundo para a Arena Pantanal.

Apesar de o país saber que sediaria a Copa em 2007, a obra começou em 2010.

A data que o governo do Mato Grosso se comprometeu a entregar a obra...

Dezembro de 2012.

Sim, 2012.

Ela foi inaugurada ontem.

Com cerca de 97% pronta.

Os alegados 3% que faltavam foram complicados.

Os relatos de quem esteve lá não deixam dúvidas.

Sem obras básicas de acesso, a lama dominou a entrada do estádio.

Marcos LamdimTCCA03 A Arena Pantanal envergonha o país. Segrega operários e seus familiares. Tiveram de sentar no cimento. Longe das cadeiras que instalaram ou dos camarotes que construíram. Este é o Brasil...

Banheiros sem água, outros entupidos.

As bilheterias eletrônicas não funcionavam.

Vários lugares com o cimento exposto, sem a colocação de piso.

Falta de iluminação ao redor da arena.

Não havia lugar para cadeirantes.

Eles foram colocados nos corredores, das arquibancadas.

O que é proibido em qualquer lugar civilizado do planeta.

Goteiras nos corredores do estádio.

E agora vem o problema ainda mais revoltante.

Das 40 mil cadeiras, apenas houve tempo para a instalação de 20 mil.

Elas foram vendidas.

Nos camarotes confortáveis havia comida e bebida liberadas.

Mas só para os convidados do governo.

Para eles foi uma comilança gratuita.

O Mixto recebeu o time reserva do Santos pela Copa do Brasil.

Foi um triste 0 a 0.

Mas vale a pena analisar foi a situação dos 1.200 operários convidados.

Vários levaram mulheres e filhos.

Estavam todos orgulhosos.

O que seria um gesto nobre do governo, na prática, acabou indecente.

Os homens que trabalharam para levantar o estádio foram segregados.

Tiveram de ficar em um lugar separado dos torcedores 'normais'.

Havia portão diferente que garantia a falta de contato.

Só poderiam usar os banheiros que estavam no seu setor.

Assim também como as lanchonetes.

Mal providas, a comida logo acabou.

Mesmo assim não podiam circular pelo estádio buscando alimento.

E a cereja do bolo.

Não havia cadeira alguma para os operários.

Tinham de sentar no cimento.

Cadeira só para quem pagou ou foi convidado.

Humilhação para os trabalhadores.

Segregação na sua forma mais pura.

Quem assistir 12 anos de Escravidão vai poder comparar.

Quando há um culto religioso, os brancos confortáveis de um lado.

Os negros, amontoados, do outro.

"Trabalhamos duro aqui e não pudemos nem sentar nas cadeiras. No bar que tivemos acesso, não tinha comida. Acho uma sacanagem conosco, já que fizemos parte dessa construção. Na hora da parte boa, nos deixam desse jeito."

O desabafo foi do montador Edinaldo Santana.

Ele teve coragem de se identificar.

Falou ao Globoesporte.com.

Vários outros operários reclamavam mas tinham medo de represálias.

E não diziam seus nomes aos repórteres que estavam lá.

O que pode até custar caro ao indignado Edinaldo.

Em coletiva, o secretário da Secopa do Mato Grosso, Marcelo Guimarães falou.

Estava feliz.

"Saio muito satisfeito. Com o resultado da partida, já que o Mixto levou o jogo para a Vila Belmiro, e com o comportamento da população. As pessoas vieram para ver um grande jogo, para conhecer uma arena de primeiro mundo. Se sentiram dentro de um estádio fora do que estavam acostumados. Foi muito positivo. Ainda falta muito trabalho para que estejamos aptos a realizar a Copa do Mundo. Porém, todas as forças funcionaram dentro da normalidade. Governo, segurança, saúde, trânsito, e a evacuação do estádio foi muito boa. Em menos de três minutos já não havia mais torcedores dentro do estádio."

Lógico, não falou uma palavra sobre a condição dos operários no jogo.

Nem lembro do pedaço do estádio, em cima.

Onde só havia cimento para sentar.

A Arena Pantanal envergonha o país. Segrega operários e seus familiares. Tiveram de sentar no cimento. Longe das cadeiras que instalaram ou dos camarotes que construíram. Este é o Brasil...

Foi como se eles não existissem.

Os que vestiram suas melhores roupas, levaram mulheres e filhos.

E foram colocados para sentar no cimento.

Até para preencher o vazio da obra incompleta.

Tristes figurantes de mais um estádio atrasado...

Mas de lá podiam ver quem tinha dinheiro desfrutar das cadeiras.

Cadeiras que eles mesmos instalaram e não puderam sentar.

E os 'amigos' do governo se esbaldar nos camarotes.

Camarotes que construíram e não puderam chegar perto.

E depois ir embora pelos portões por onde entraram.

Sem o menor contato com quem pagou ou foi convidado para os camarotes.

Vergonhoso.

Esse foi apenas um exemplo perdido de como as coisas acontecem no Brasil.

País que onde a discriminação é escancarada.

Que chegue logo a Copa do Mundo em Cuiabá.

Com suas quatro partidas da fase de classificação.

11 dias de utilidade real.

Depois?

Ninguém sabe.

Ninguém quer saber.

Assim o país gastou mais R$ 570 milhões dos seus cofres públicos.

E ainda por cima aproveitou para lembrar ao mundo.

Lugar de gente pobre é no cimento, longe dos abastados.

Como se tivessem lepra.

Fossem os intocáveis na Índia.

Ou simplesmente negros no Mississipi dos anos 60.

Esses mesmos abastados vão ao cinema no shopping center de Cuiabá.

E choram ultrajados vendo 12 Anos de Escravidão.

Que Brasil é esse?

Cosme Rímoli/R7





Fonte: Olhar Copa

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