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Comportamento
Quinta - 29 de Janeiro de 2026 às 09:29
Por: Ariane Locatelli e Jolismar Bruno/Primeira Página

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Nesta quinta-feira (29) é comemorado o Brasil, o Dia da Visibilidade Trans, data que celebra orgulho, a existência e chama a atenção para conscientização e a resistência da comunidade trans e travesti, dentro do movimento LGBT em um país onde a expectativa de vida de pessoas transexuais gira em torno dos 35 anos, menos da metade da média nacional (76 anos), segundo a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra).

Em Mato Grosso, histórias de longevidade se transformam em atos de resistência, como a da cabeleireira Maria Luísa Roman, que, os 49 anos, rompe estatísticas e relembra com carinho o início de um processo marcado por autoconhecimento, coragem e amor-próprio.

Maria Luisa Roman foto Redes SociaisMaria Luisa Roman é cabeleireira aos 49 anos em Cuiabá. – Foto: Redes sociais

A transição de gênero começou ainda na adolescência, por volta dos 14 anos, mas foi vivida de forma gradual e íntima.

“O meu processo de transição foi bem gradativo, porque é uma coisa muito íntima. Você precisa primeiro se entender com você mesma, saber o porquê você sente aquilo, para depois conseguir lidar com o que vem pela frente”, relembrou.

Mais do que coragem, Maria Luísa encontrou apoio dentro de casa. A família foi a principal fortaleza em um período em que ser uma mulher trans significava enfrentar invisibilidade e preconceito de forma ainda mais intensa. Hoje, ao olhar para o passado, ela reconhece que a realidade era muito diferente da atual.

“Na época da minha transição, era um mundo pré internet e não tinha muita informação. A gente vinha de uma geração em que pessoas trans eram vistas apenas à noite. Durante o dia, você não via. Quando saía na rua, as pessoas gritavam, apontavam, na escola todo mundo te olhava. Quando eu entendi que esse era o caminho que eu queria, foi a melhor escolha de amor que eu fiz por mim”, afirmou.

Superar a expectativa de vida da população trans no Brasil, significa, além de sobreviver, ter acesso a acolhimento, saúde e redes de apoio.

Maria Luisa Roman foto TVCAMaria Luisa Roman é cabeleileira aos 49 anos em Cuiabá. – Foto: TV Centro América

População carecida

Em Mato Grosso, esse suporte passa pelo Ambulatório de Atenção à Transexualidade, um serviço público estadual que oferece acompanhamento clínico e psicológico para pessoas em processo de transição. Só no ano passado, foram mais de dois mil atendimentos realizados.

A unidade funciona há pouco mais de um ano e é anexa ao Centro Estadual de Referência em Média e Alta Complexidade (Cemarc). O atendimento é voltado à população adulta transexual e travesti de todo o estado.

Segundo a responsável técnica pelo ambulatório, Graciane Magalhães, o processo transexualizador envolve diferentes etapas.

“É importante lembrar que o processo envolve uma série de procedimentos. No nosso serviço, atualmente, ofertamos a hormonoterapia. O acompanhamento clínico e psicológico é fundamental, inclusive para quem deseja futuramente realizar a cirurgia de reafirmação de gênero”, explicou.

O processo cirúrgico, quando desejado, exige pelo menos dois anos de acompanhamento e envolve uma equipe multiprofissional, formada por clínico-geral, psiquiatra, endocrinologista, urologista, psicólogo e assistente social. O primeiro acesso ao serviço acontece por meio da Unidade Básica de Saúde. Nenhum processo de transição de gênero feito em pessoas menores de 18 anos, conforme regulamentações do Conselho Federal de Medicina (CFM).

Acesso a direitos básicos

É o caso de Lorena Gabrielly Dias, de 20 anos, que está em tratamento e processo de transição de gênero.

“Meu objetivo é me tornar uma pessoa mais apresentável para mim mesma e, futuramente, fazer a cirurgia de resignação que eu desejo muito, com todo o acompanhamento certo para ter uma caminhada segura”, afirmou.

Lorena Gabriely e trans e faz acompanhemento em CuiabaLorena Gabriely faz acompanhamento no período de transição de gênero. – Foto: TV Centro América

Lorena diz que se sente acolhida durante todo o processo. Para ela, o atendimento – que vai desde a recepção até os atendimentos médicos – é maravilhoso. Em um país que ainda lidera o ranking mundial de violência contra pessoas trans e travestis, o acesso à saúde, ao respeito e ao afeto se torna um caminho de sobrevivência e também de esperança.

“Nosso trabalho é baseado no acolhimento e na escuta qualificada. Aqui é um espaço onde essas pessoas têm vez e voz, para falar de suas demandas clínicas, sociais e econômicas. A partir disso, a gente constrói um acompanhamento que realmente dê respostas”, reforçou Graciane.

Maria Luísa e Lorena pertencem a gerações diferentes, mas compartilham o mesmo direito: o de viver com dignidade. Para quem está começando agora, a experiência de quem veio antes se transforma em inspiração.

“Eu sempre aconselho que elas busquem esse autoconhecimento, que não sejam só da noite, mas também do dia. Que se respeitem por dentro, porque assim as pessoas vão respeitar por fora. Existe um mundo lá fora que pode ser bonito, colorido e muito bom, se elas souberem onde querem chegar”, disse Maria Luísa.

A trans mais velha do Brasil

Tiana Cardeal é a travesti mais velha do Brasil com 92 anos. Uma pesquisa que está em andamento, também pode registrar Tiana no Guinness Book como a mulher trans mais velha do mundo. Vivendo em Governador Valadares (MG), Tiana diz ser trans desde pequena e que tem muito orgulho de quem sempre foi.

Em uma entrevista a Glamour, Tiana contou nunca ter conhecido seus pais e que foi deixada ainda pequena em uma igreja. Criada por fazendeiros na região de Guanhães (MG), ela conheceu cedo a violência doméstica e a exploração. “Fui criada com muita violência. Eu tinha um irmão de criação que me batia muito”, revelou.

Sua história foi transformada em documentário intitulado “Meu Nome é Tiana”, dirigido por Dafny Bastet.

Tiana CardealTiana Cardeal é a mulher transexual mais velha do Brasil. – Foto: Lucas Veloso/Nonada Jornalismo

Dia Nacional da Visibilidade Trans

Criado em 2004, o Dia Nacional da Visibilidade Trans chama a atenção para a necessidade de combater a violência contra a população trans e reforça a importância da garantia de direitos. A data também marca a resistência desse grupo social e serve como espaço de reivindicação por mais inclusão e avanços efetivos, sem retrocessos.

Embora conquistas tenham sido alcançadas nas últimas décadas, permanecem desafios significativos, especialmente no acesso à educação, ao mercado de trabalho e aos serviços de saúde.





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