15 frigoríficos de MT passam por vistoria não comprovam controle ambiental, diz estudo Levantamento do Radar Verde aponta falhas na rastreabilidade da carne em Mato Grosso e desafios para atender exigências da União Europeia.
Quinze frigoríficos de Mato Grosso habilitados a exportar carne bovina para a União Europeia não conseguem comprovar que as cadeias produtivas estão livres de desmatamento, segundo levantamento realizado ao longo de 2025 e divulgado nesta quarta-feira (18) pelo Radar Verde.
Cadeia produtiva da carne não consegue comprovar isenção de desmatamento no processo. – Foto: ReproduçãoO estudo, intitulado Radar Verde European Union: The extent to which slaughterhouses licensed to export to the European Union demonstrate control over suppliers to avoid deforestation in the Amazon, analisou 15 plantas industriais no estado e concluiu que nenhuma apresentou evidências robustas de controle socioambiental, o que pode comprometer o acesso ao mercado europeu nos próximos anos.
As unidades avaliadas pertencem a oito empresas, que estão localizadas na Amazônia Legal e somam capacidade de abate de 11,2 mil animais por dia. Além disso, nenhuma das companhias respondeu ao questionário enviado pelos pesquisadores para detalhar como monitoram suas cadeias de fornecimento.
O “ponto cego” da cadeia
O principal gargalo está onde o controle praticamente não chega: os fornecedores indiretos. São essas fazendas que criam ou recriam o gado antes da venda final ao frigorífico e é justamente nesse trecho que o risco de desmatamento se esconde.
O estudo aponta que cerca de 80% das plantas demonstram algum nível de controle sobre fornecedores diretos. No entanto, nenhuma comprovou, com auditorias independentes, que monitora toda a trajetória do animal.
Na prática, isso abre espaço para a chamada “lavagem de gado”, quando animais oriundos de áreas desmatadas passam por propriedades regulares para “limpar” a origem.
Baixo controle é regra no setor
A análise classifica o desempenho das empresas como insuficiente: 87% das unidades apresentam baixo nível de controle socioambiental, enquanto 13% estão na categoria de controle muito baixo.
O relatório também destaca a expansão do setor. Em 2024, eram oito frigoríficos de seis empresas exportando para a União Europeia. Em 2025, o número saltou para 15 plantas de oito grupos, praticamente dobrando a capacidade de abate.
Risco elevado de desmatamento
O estudo aponta que o risco de novo desmatamento nas áreas de compra desses frigoríficos varia de 31 mil a 2,8 milhões de hectares, evidenciando a conexão direta da cadeia produtiva com regiões sensíveis da Amazônia.
Nova lei europeia vai apertar o cerco
O levantamento do Radar Verde ocorre em meio à implementação da Regulamentação Europeia contra o Desmatamento (EUDR), que exigirá rastreabilidade completa da cadeia produtiva.
A norma determina que empresas comprovem, com dados e geolocalização, que a carne não foi produzida em áreas desmatadas, incluindo todas as propriedades por onde o gado passou.
A exigência entra em vigor a partir de 30 de dezembro de 2026 para grandes empresas e de 30 de junho de 2027 para pequenas e microempresas.
Sistema atual ainda é limitado
Segundo o estudo, o Brasil já possui ferramentas como o Sistema Brasileiro de Identificação Individual de Bovinos (SISBOV), mas o modelo atual identifica os animais apenas até cerca de 90 dias antes do abate e não garante rastreabilidade completa quando há passagem por diferentes propriedades.
Outros sistemas, como o Cadastro Ambiental Rural (CAR) e as Guias de Trânsito Animal (GTA), também ainda não estão plenamente integrados.
Mercado cresce e a exigência também
O desafio ocorre em um momento de crescimento das exportações para a União Europeia. Em 2025, o bloco importou 128,9 mil toneladas de carne bovina brasileira, movimentando cerca de US$ 1,06 bilhão, alta de 132,8% em relação a 2024.
O desafio daqui para frente
O Radar Verde aponta que o avanço passa pela integração de bases de dados como CAR, GTA e informações sobre desmatamento, ampliando a transparência e o controle da cadeia, especialmente sobre fornecedores indiretos.
Sem isso, o setor pode enfrentar uma nova barreira internacional, não por preço ou volume, mas pela dificuldade de comprovar a origem da carne.

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