Plano Safra perde espaço e produtor recorre mais ao crédito privado Dos R$ 97,6 bilhões para linhas com juros equalizados em 2026/27, só R$ 1,3 bilhão foi concedido no 1º mês
O Plano Agrícola e Pecuário (P

AP) 2026/27 foi anunciado com R$ 525,1 bilhões para a agricultura empresarial, o maior volume nominal já colocado à disposição do setor.
Mas os primeiros números da safra revelam uma realidade mais complexa: cresce a distância entre o montante global anunciado e o crédito rural em condições favorecidas que efetivamente chega ao produtor.
Dos R$ 97,6 bilhões programados para linhas equalizáveis — aquelas em que o Tesouro Nacional cobre parte da diferença entre os juros de mercado e as taxas cobradas do produtor — apenas R$ 1,3 bilhão havia sido concedido em julho, primeiro mês do ciclo 2026/27.
O número representa uma execução inicial de aproximadamente 1,3% do volume programado para essa modalidade.
Embora seja apenas o primeiro dos 12 meses da safra e não permita projetar o resultado de todo o ciclo, a largada evidencia o peso crescente de outras fontes no financiamento da produção.
O próprio desenho do Plano Safra ajuda a dimensionar a diferença.
Dos R$ 525,1 bilhões anunciados para médios e grandes produtores, R$ 384,9 bilhões são destinados a custeio e comercialização e R$ 140,2 bilhões a investimentos.
Nem todo esse dinheiro, porém, corresponde a recursos públicos subsidiados ou com juros equalizados pelo Tesouro.
É justamente essa distinção que ganha importância à medida que produtores recorrem mais a instrumentos privados, linhas próprias das instituições financeiras e capital próprio para manter a atividade.
CPR DOMINA CONTRATAÇÕES - Em julho, a agricultura empresarial contratou R$ 28,2 bilhões nas operações contabilizadas pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa).
Desse total, R$ 18,8 bilhões vieram de Cédulas de Produto Rural (CPRs), equivalentes a 66,6% das contratações.
O custeio convencional respondeu por R$ 6,5 bilhões, ou 23%.
O estoque de CPRs alcançou R$ 580,8 bilhões em julho, distribuídos em aproximadamente 372 mil títulos, com R$ 37,5 bilhões em novos registros somente naquele mês.
A CPR permite ao produtor antecipar recursos tendo como referência sua produção, podendo envolver bancos, tradings e outros agentes privados.
A expansão desse mercado amplia as alternativas disponíveis, mas não significa necessariamente acesso ao dinheiro nas mesmas condições das linhas controladas ou equalizadas.
O produtor continua precisando antecipar recursos para comprar sementes, fertilizantes e defensivos, preparar o solo, realizar o plantio, financiar operações e investir em máquinas e armazenagem antes de receber pela comercialização da safra.
Quando diminui a participação das linhas favorecidas, uma parcela maior dessa necessidade passa a depender das condições de mercado.
EM MT, FEDERAL CAI A 5,1% - Em Mato Grosso, essa mudança já aparece na composição do financiamento da soja.
Segundo o Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea), a participação dos bancos com recursos federais no custeio caiu de 8,7% na safra 2024/25 para 5,1% em 2025/26.
Em sentido contrário, o sistema financeiro — categoria que contempla linhas próprias das instituições — aumentou sua participação de 30,4% para 35,4%, consolidando-se como a principal fonte de financiamento do plantio.
Também cresceu o uso de dinheiro do próprio agricultor. Os recursos próprios passaram de 20,7% para 23,5% do custeio.
Os números mostram que, enquanto a fonte federal perdeu 3,6 pontos percentuais de participação em apenas uma safra, bancos operando outras modalidades e o próprio produtor ocuparam parte desse espaço.
A mudança ocorre em um momento de deterioração da carteira de crédito rural.
Em julho, o saldo problemático das operações analisadas em Mato Grosso chegou a R$ 21,8 bilhões, equivalente a 20,3% da carteira.
Isso significa que a migração para fontes mais sujeitas às condições de mercado ocorre quando uma parcela relevante das operações já apresenta algum grau de risco ou deterioração.
MENOS TECNOLOGIA - Para a Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja-MT), as dificuldades de financiamento já interferem nas decisões para a safra.
O diretor administrativo da entidade, Diego Bertuol, afirma que produtores estão revendo investimentos para reduzir a exposição financeira.
“Isso já está interferindo nas decisões para esta safra. A percepção que temos entre nossos associados é de uma safra com menor nível de tecnologia embarcada, justamente como forma de controlar o risco financeiro”, afirma.
Segundo Bertuol, o produtor passa a reduzir ou postergar gastos com corretivos e fertilizantes e procura insumos e tecnologias de menor custo.
“É uma decisão financeira que pode trazer como consequência uma redução do potencial produtivo das lavouras. Isso não surgiu agora. É consequência das dificuldades de crédito acumuladas nos últimos anos e que se agravaram nesta safra.
A Aprosoja-MT vem alertando sobre isso ciclo após ciclo”, acrescenta.
O ANÚNCIO E O DINHEIRO NO CAMPO - Os dados também colocam em discussão a forma como o Plano Safra é apresentado.
O montante global de R$ 525,1 bilhões reúne recursos com diferentes origens, taxas, prazos e condições.
Dentro desse universo, a programação das operações equalizáveis para a agricultura empresarial soma R$ 97,6 bilhões.
O Tesouro cobre parte da diferença entre a taxa de mercado e aquela paga pelo produtor nessas linhas.
Por isso, o tamanho anunciado do Plano Safra não pode ser interpretado como se todo o dinheiro estivesse disponível ao produtor com juros subsidiados.
No primeiro mês da safra, enquanto apenas R$ 1,3 bilhão das linhas equalizáveis havia sido concedido, as CPRs responderam por dois terços dos R$ 28,2 bilhões contabilizados pelo Mapa.
Em Mato Grosso, a mudança aparece de outra forma: a participação das fontes federais no financiamento da soja diminui enquanto crescem as linhas próprias do sistema financeiro e o autofinanciamento.
Os instrumentos privados são hoje parte essencial do financiamento do agronegócio e ampliam as alternativas para o produtor.
O avanço dessas modalidades, entretanto, torna necessário separar volume de crédito disponível de política pública de crédito favorecido.
Para quem está no campo, mais importante do que o tamanho do anúncio é saber quanto poderá contratar, quando o dinheiro será liberado, quais juros terá de pagar e quais garantias serão exigidas.
É essa diferença que os primeiros números da safra 2026/27 começam a revelar.

Comentários