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Agronegócios
Quarta - 09 de Setembro de 2026 às 16:28
Por: Jolismar Bruno/Primeira Pagina

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No leste de Mato Grosso, em uma região dominada pelo bioma Cerrado, o povo indígena Kurâ-Bakairi consolida-se como um dos poucos grupos étnicos do Brasil a integrar com sucesso a criação de gado ao seu modo de vida. Atualmente, o rebanho da etnia soma cerca de 1.200 cabeças de gado, distribuídas estrategicamente por oito aldeias situadas nos municípios de Paranatinga e Planalto da Serra.

cabecas de gado furtadasIndígenas do povo Bakairi mantém pecuária no Cerrado de MT. – Foto: Reprodução

Segundo o artigo escrito pelo professor do Departamento de Ciências Sociais e do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Felipe Vander Velden, a responsabilidade pelos rebanhos recai sobre os caciques de cada uma das oito aldeias.

A aldeia Pakuera, por exemplo, cuida de cerca de 300 cabeças. Para garantir a saúde do rebanho, os indígenas contam com apoio do Instituto de Defesa Agropecuária de Mato Grosso (Indea), que fornece vacinas e medicamentos duas vezes ao ano.

Aldeia indigena pakuera foto reproducao instagramAldeia Pakuera tem cerca de 300 cabeças de gado, segundo apontou artigo científico. – Foto: Reprodução/Aldeia Central Pakuera

Movimento histórico

Diferente de outros grupos em que a introdução do gado fracassou, os Bakairi possuem uma relação com os bovinos que remonta ao século XVIII. Essa conexão é tão profunda que o boi foi incorporado à mitologia do povo.

Segundo as narrativas tradicionais, a personagem mítica Keri (o Imperador) criou os seres humanos e o gado simultaneamente. Na língua indígena, o animal é chamado de tapira, termo emprestado da palavra usada para “anta”, o que demonstra a antiga familiaridade com o animal.

Atividade de subsistência

A opção pela pecuária não é apenas econômica, mas uma ferramenta política de sobrevivência. Os Bakairi utilizam o gado para ocupar e proteger o território contra invasões de fazendeiros vizinhos, seguindo a lógica regional de que áreas ocupadas por animais são menos visadas para a grilagem.

Além disso, segundo o artigo, a criação adapta-se perfeitamente à geografia local, já que cerca de 85% do território Bakairi é composto por Cerrado, área que os indígenas pouco utilizavam para horticultura ou pesca, mas que é propícia para a criação extensiva.

Aldeia indigena pakuera foto reproducao instagram 2A pecuária indígena funciona como política de sobrevivência. – Foto: Reprodução/Aldeia Central Pakuera

O gado funciona como uma “poupança com liquidez”, podendo ser convertido em dinheiro rapidamente para necessidades urgentes da comunidade, segundo o artigo.

Apesar do sucesso, o modelo Bakairi difere do agronegócio tradicional. Enquanto as grandes fazendas buscam lucro intensivo, a pecuária indígena foca na autonomia, na defesa da terra e na manutenção da coletividade, provando que é possível adotar tecnologias exógenas sem abrir mão da identidade cultural.





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