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Internacional
Sábado - 16 de Abril de 2005 às 20:00

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O constante uso da mídia pelo papa João Paulo II levou vários especialistas a defender uma Igreja Católica "mais humilde" no novo pontificado, que começa a ser definido na próxima semana.

O diretor editorial da agência de notícias católica Adista, Giovanni Avena, diz que um outro pontificado marcado pela atenção à midia poderá ser perigoso para a Igreja Católica.

"A continuidade nao é possível", diz. "Se correr atrás do sucesso e da prepotência dos meios de comunicação, (a Igreja) vai deixar apenas a imagem de si mesma", prevê Avena.

Segundo ele, a Igreja Católica deve fazer exatamente o contrário: não falar apenas de si mesma e "ouvir a humanidade, não os potentes do mundo".

O intelectual e editorialista do jornal italiano La Repubblica Adriano Sofri também critica a super exposição na mídia do papa João Paulo 2º. Segundo ele, a tentação de fazer o mesmo pode representar um perigo para o próximo papa.

Sofri argumenta que o carisma e o talento de ator de Karol Wojtyla fizeram com que ele pudesse usar a mídia sem colocar em risco sua imagem. Mas ele acredita que a estratégia possa não funcionar com seu sucessor.

"Se os eleitores quiserem imitá-lo, a Providência vai ter que proteger o eleito para que não seja vítima da vulgaridade", alerta.

João Paulo I

Andrea Tornielli, vaticanista e autor de diversos livros sobre a Santa Sé, vai além e defende não apenas um pontífice diferente de João Paulo II no contato com o grande público, mas alguém com uma característica oposta ao último papa.

"Talvez seja o momento de escolher um papa de simplicidade evangélica, muito menos protagonista", sugere Tornielli, que escreveu duas biografias do antecessor de Karol Wojtyla, o papa João Paulo I, que morreu após apenas 33 dias à frente da Igreja.

"O lema de Albinio Luciani, o papa João Paulo I, era umilitas, ou humildade em latim", diz Tornielli. Em sua opinião, Luciani, que ficou conhecido como o papa do sorriso, pode ser um exemplo para o futuro da Igreja Católica.

"Ele teria sido firme na questão da doutrina, como fez João Paulo II, mas teria insistido menos nos temas ligados à moral. Mesmo porque tinha uma posiçao mais aberta sobre os métodos anticoncepcionais", analisa.

Para muitos analistas, uma das grandes dificuldades que os cardeais eleitores enfrentarão no conclave, que começa nesta segunda-feira, é justamente encontrar um substituto à altura de Joao Paulo II sem apelar para a imitação.

Eles devem considerar que a imagem que têm a respeito de um candidato pode se revelar diferente depois que ele for eleito.

Foi o caso do papa João XXIII. "Quando cardeal, ele parecia subalterno, prudente, ligado à cúria de Pio XII. Eleito, se liberou das inibições e explodiu, criando o Concilio Vaticano 2º", comenta o ensaísta e estudioso de Vaticano Giancarlo Zizola.

O decano dos vaticanistas também confirma essa tendência. Benny Lai acompanhou cinco conclaves e diz que, quando um cardeal se torna papa, muda. "É uma página nova no livro da Igreja", afirma.

Carisma ou distribuição do poder?

Na medida do possível, os cardeais devem estar avaliando se devem optar por um governo carismático e personalizado, como foi o de João Paulo II, ou se concentrar na aplicação das orientações do Concílio Vaticano 2º, que prevê a passagem aos bispos de uma parte do poder agora concentrado nas mãos do pontífice e da cúria.

"A Igreja é pressionada pela reivindicação de uma figura-guia, não por parte de seus fiéis, mas de um Ocidente que perdeu João Paulo II e precisa de uma referência para preencher suas incertezas e lacunas", analisa Alberto Melloni, professor de história do cristianismo em Bolonha.

Em sua opinião, o novo papa deve responder a essas expectativas, mas também saber que a Igreja "não é apenas satisfazer as incertezas interiores de um Ocidente desorientado".

Num ponto muitos vaticanistas concordam: o próximo papa deverá governar mais a Igreja e exercer sua função de bispo de Roma.

"É preciso colocar ordem nas coisas", comenta Benny Lai. "Joao Paulo II passou um ano de seu pontificado fora de Roma, e o resultado é que hoje não há uma classe dirigente importante", crítica.

Diante dessas dificuldades e dos grandes desafios que a Igreja deve efrentar, como a diminuição do número de fiéis, o contraste com o islamismo, ecumenismo, problemas internos e os grandes temas sociais, alguns analistas sugerem um papado de transição.

Seria um período de reflexão antes de promover grandes mudanças e fazer decantar a forte herança de João Paulo II.





Fonte: BBC Brasil

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