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Internacional
Segunda - 19 de Dezembro de 2005 às 09:43

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Institutos de pesquisas apontam votação sem precedentes para o líder cocaleiro Evo Morales, que promete combater o tráfico

LA PAZ - A se confirmarem as projeções de todos os institutos de pesquisas bolivianos, Evo Morales está para quebrar um recorde histórico. No fim da noite de ontem, quando 3,6 milhões de eleitores foram às urnas na Bolívia, as projeções de boca-de-urna davam de 49,9% a 57,7% dos votos válidos ao candidato. Se obtiver 50% dos votos mais um, Evo Morales pode ser declarado presidente ainda hoje. Se não conseguir, a decisão entre o líder cocaleiro e o segundo colocado ficará nas mãos do Congresso, que se manifestará em janeiro. Mas analistas de seu país apostam que a tendência é que os parlamentares, também eleitos ontem, acompanhem a vontade popular. O segundo colocado, ainda de acordo com os institutos de pesquisa, será, mesmo, Jorge “Tuto” Quiroga, candidato dos que temem o radicalismo de esquerda de Morales. Para o ex-presidente, as projeções apontam algo entre 25,4% e 33%. Nas eleições regionais – para os governantes dos departamentos –, no entanto, Morales deverá amargar uma derrota que vai obrigá-lo a negociar a governabilidade. Os institutos apontam que a a aliança Poder Democrático e Social (Podemos), de Quiroga, vai ganhar em seis dos nove departamentos. O MAS (Movimento ao Socialismo) do líder cocaleiro não deverá eleger candidato em nenhum, ficando os outros três nas mãos de partidos e alianças menores que também disputaram as eleições.

Até agora, o recorde de votos obtidos por um candidato a presidente foi em 2002, quando Gonzalo Sánchez de Lozada foi eleito com 36%. Nunca um político conseguiu 50% mais um.

Lozada perdeu o cargo, em 2003, em conseqüência da chamada “guerra do gás”, que deixou 60 mortos durante os conflitos populares reprimidos com truculência pelo governo. Questão nacional, o tema foi assunto obrigatório das entrevistas que Morales deu ontem. Já em tom de presidente eleito, o candidato anunciou que vai nacionalizar não só o gás natural, mas toda a riqueza natural do país. Depois de votar, disse ainda que “a riqueza natural no governo do MAS irá voltar às mãos do Estado”.

Hoje as reservas de gás natural da Bolívia, estimadas em 108 bilhões de metros cúbicos, são exploradas por empresas estrangeiras. As reservas do país só são superadas na América do Sul pelas da Venezuela. Porém, o candidato não informou qual será a extensão do embargo que poderá impor às empresas multinacionais.

O presidente virtual criticou George Bush:

– Se ele defende a vida e se considera um democrata, deve retirar as tropas do Iraque e acabar com todas as bases militares da América Latina, pois não estamos em tempos de guerra – afirmou Morales, que se disse disposto a manter relações de respeito mútuo com o governo americano, “mas sem relações de subordinação ou de submissão”.

E mandou recado àqueles que costumam chamá-lo de traficante – a Casa Branca incluída:

– A coca deu origem a esse movimento dos povos, a esse instrumento político. A defesa dessa folha levantou o povo organizado. Haverá cocaína zero, narcotráfico zero, mas não coca zero – afirmou o candidato, cercado por produtores de coca em uma escola de seu reduto eleitoral do Chapare boliviano.

O fato de ter feito questão de afirmar que vai se empenhar na luta contra o tráfico levou alguns analistas bolivianos a arriscar a previsão de que, se virar, mesmo, o primeiro líder cocaleiro a assumir o governo do país, Morales tenderá a deixar um pouco de lado o radicalismo que mobilizou a população da Bolívia. E, aí, terá de enfrentar, ele próprio, os extremistas.

– Tenho a certeza de que Morales vai ter de virar um pouco à direita. Mas também estou convencido de que, se fizer isso, os setores da extrema esquerda que o estão apoiando vão mandar a conta – avalia Sergio Antelo, em entrevista ao jornal boliviano El Mundo.

Cerca de 26 mil militares e 24 mil policiais foram convocados ontem para fazer a segurança das 121.119 mesas eleitorais dispostas para o pleito. Mais de 200 observadores internacionais acompanham o pleito. Só a Organização dos Estados Americanos (OEA) enviou 166 observadores.

A votação transcorreu em calma nas seções eleitorais do país, formado por um território de um milhão de quilômetros quadrados das planícies tropicais do Leste até o planalto de 4.000 metros de altura.

Além de Morales e de Quiroga, disputaram o cargo o empresário do ramo de cimento Samuel Doria Medina, da Unidade Nacional (UM); Gildo Angulo, da Nova Força Republicana (NFR); Felipe Quispe, do Movimento Indígena Pachakuti (MIP); Michiaki Nagatani, do Movimento Nacionalista Revolucionário (MNR); Néstor García, da União Social de Trabalhadores da Bolívia (USTB), e Palácio do Eliseu Rodríguez, da Frente Patriótica Agropecuária da Bolívia (Frepab).

Durante sua visita a sua seção eleitoral, Morales também criticou o Chile. Ele disse que se o país vizinho “quer diplomacia” deve dar à Bolívia acesso ao mar. Segundo ele, as más relações entre as duas nações se devem à recusa de Santiago em ceder uma passagem ao Oceano Pacífico que seria importante para ampliar as relações comerciais internacionais bolivianas. Daqui a duas semanas, La Paz e Santiago negociarão uma ampliação do Acordo de Complemetação Econômica, que rege as relações comerciais entre os dois países.

– Quero expressar o que sente um povo. A maioria dos bolivianos não está de acordo com a implementação das relações comerciais com o Chile antes de resolvermos a questão marítima – desafiou.

A demanda boliviana é antiga, já que a passagem marítima foi perdida para o Chile em na guerra entre os dois países, em meados do século XIX. As nações têm contato diplomático rompido desde 1978, mas ontem, o governo chileno, através de um porta-voz, já sinalizou que pretende se empenhar em melhorar as relações entre os dois países não importando quem seja o vencedor.





Fonte: JB Online

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