Mais de 20 entidades se manifestam contra construção de ponte no Pantanal Associações de grupos ribeirinhos e da conservação da biodiversidade pantaneira alegam que ponte de concreto aumentará o fluxo de veículos pesados.
Comunidades tradicionais, integrantes do segmento do turismo e ao menos 22 associações ligadas à conservação da vida silvestre publicaram uma carta aberta à sociedade e autoridades mato-grossenses nesta sexta-feira (27) contra a construção de uma ponte de concreto que ligará Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, na região de Porto Jofre, no final da MT-060, na “Transpantaneira”.
Transpantaneira em Poconé marca o início do Pantanal mato-grossense. – Foto: Secom-MTOs grupos argumentam que a construção de uma obra viária de grande porte acarretará no aumento do fluxo de veículos pesados e não necessariamente ligados ao turismo sustentável em áreas sensíveis, podendo representar risco à fauna silvestre, ampliando o número de atropelamentos de animais e ameaçando espécies.
“A implantação da ponte tende a direcionar o uso da estrada para o transporte de commodities, com circulação de veículos pesados incompatíveis com a atividade turística e com a conservação ambiental. […] A criação de um corredor logístico interestadual representa duro impacto a um dos biomas mais sensíveis do planeta, comprometendo sua integridade ecológica e seu potencial turístico sustentável”, diz trecho da carta.
É citado ainda, que diante do contexto em que o Pantanal enfrenta desafios como secas severas e prolongadas, com redução da área alagada, são necessárias medidas de proteção e conservação, e não “abertura de novas frentes de impacto”.
O documento é assinado por associações, institutos, agentes, operadores, proprietários de pousadas, barcos-hotel e embarcações turísticas, juntamente com comunidades indígenas, ribeirinhas e representantes da sociedade civil organizada que atuam no Pantanal, no município de Poconé (MT).
Segundo eles, existem outras alternativas para que, por meio de direcionamento de recursos, o turismo local e visitação sustentável seja fortalecida. “Tais investimentos contribuem para ampliar o tempo de permanência dos visitantes no Estado, fortalecer a economia local e valorizar o turismo sustentável”, cita.
Ao final, as entidades pedem a participação pública nas decisões que envolvem a localidade.
Acordo entre estados e construção da ponte
O alvo da manifestação das entidades é um protocolo de intenções entre a Secretaria de Estado de Infraestrutura e Logística de Mato Grosso (Sinfra-MT) e a Secretaria de Estado de Infraestrutura e Logística de Mato Grosso do Sul (Seilog-MS), que prevê a criação de um corredor logístico rodoviário que integre os pantanais via rodovia MT-060 (Transpantaneira) e rodovia MS-214.
Conforme publicado em Diário Oficial do Estado, no dia 4 de fevereiro deste ano, o projeto conta com a execução de uma ponte de concreto sobre o Rio São Lourenço no final da MT-060, em Porto Jofre (MT), bem como a implantação e execução pelo Estado de Mato Grosso do Sul de um trecho rodoviário estadual integrado ao seu sistema rodoviário estadual para acesso à ponte.
A assinatura ocorreu no dia 3 de fevereiro e tem vigências de 48 meses.
Ao Primeira Página, o conselheiro da Unidade de Conservação Transpantaneira e do Parque Estadual Encontro das Águas, André Thuroni, alega que as comunidades tradicionais e entidades de turismo nunca foram chamadas pelas autoridades envolvidas ou que tenha sido apresentado qualquer tipo de estudo de impacto ou de viabilidade da obra.
Pioneiro do ecoturismo brasileiro no Pantanal e pesquisador da região desde 1976, Thuroni cita que a publicação do protocolo de intenções deixou entidades em alerta.
A reportagem entrou em contato com a Sinfra-MT para mais informações sobre a obra, custos estimados para sua execução, prazo previsto para início e término da construção, no entanto, até publicação não obteve retorno.
Entidades defendem aporte de recursos para manutenção da visitação sustentável em Poconé e são contrárias a construção de ponte sobre a Transpantaneira. – Foto: Reprodução.Porto Jofre e região da Transpantaneira
Conhecido como lar das onças-pintadas, Porto Jofre, no Pantanal mato-grossense, concentra uma das maiores densidades populacionais desta espécie felina, sendo reconhecido mundialmente como o melhor local para avistar onças em seu habitat natural.
Por meio do turismo sustentável, safáris de barco oferecem a turistas, biólogos e outros observadores da vida animal de diversas partes do mundo oportunidade de visitar e acompanhar de perto o comportamento das onças em momentos de caça na beira do rio, acasalamento e procriação, cuidados com filhotes, entre outros.
As entidades que assinam o manifesto defendem a manutenção da Estrada Parque Transpantaneira em sua condição rústica de terra e cascalho, de forma mais “natural”, contribuindo para o avistamento de onças, tamanduás, antas, veados, ariranhas e centenas de aves.
Flagrante de casal de onças às margens do rio Claro, em Poconé – Foto: Marcos’s Pantanal.
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