Fábio deixa vice e Pivetta promete substituto ainda hoje Deputado atribui decisão à proibição de contato com Mauro Mendes; governador nega racha, mantém apoio aos aliados atingidos pela operação e diz que mais de um nome está em análise
A Operação Heritage provocou a primeira mudança na chapa majoritária governista para as eleições de outubro. O deputado federal Fábio Garcia (União Brasil) desistiu nesta terça-feira (11) de ser candidato a vice-governador na chapa de Otaviano Pivetta (Republicanos) e anunciou que retomará seu projeto de reeleição à Câmara Federal.
Garcia atribuiu diretamente a decisão às restrições impostas pelo ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), que proibiu investigados na operação, entre eles o deputado e o ex-governador Mauro Mendes (União Brasil), de manterem contato.
“Todos acompanharam a decisão do ministro Flávio Dino. Essa decisão impõe a todos nós uma restrição. Eu e o ex-governador Mauro Mendes, por decisão do ministro, não podemos nos comunicar. Portanto, não podemos estar no mesmo local, e isso impõe a todos nós dificuldade de poder tocar a campanha”, afirmou Garcia.
A decisão judicial não impede nenhum dos dois de disputar as eleições, nem determina a saída de Garcia da chapa. A avaliação política feita pelo grupo, entretanto, foi de que as limitações de contato criariam dificuldades práticas para a condução de uma campanha majoritária conjunta.
Mendes é candidato ao Senado e uma das principais lideranças da aliança que sustenta Pivetta. Fábio, como vice, teria de participar da mesma estrutura eleitoral, incluindo reuniões, viagens, gravações e atos políticos.
Garcia revelou ainda que a decisão de deixar a majoritária ocorreu após pedidos feitos por dirigentes dos partidos que integram a coligação.
“Eu recebi, portanto, pedidos dos presidentes dos partidos da nossa coligação, que eu reavaliasse a candidatura a vice e voltasse à candidatura de deputado federal. E entendendo que nós precisamos tocar para frente o projeto, eu vou voltar à candidatura de deputado federal. Essa é a decisão”, declarou.
Com a saída confirmada, Pivetta iniciou imediatamente a busca por um substituto e garantiu que pretende anunciar o novo candidato a vice ainda nesta terça-feira.
“Até hoje, no final do dia, vai sair o nome da nova pessoa”, afirmou.
Segundo o governador, há mais de uma alternativa sendo analisada.
“Tem mais de um nome em análise. Vai sair até o final do dia”, reforçou.
Nos bastidores, circulam nomes como os da vereadora por Cuiabá Michelly Alencar, da suplente de deputada federal Gisela Simona, do ex-diretor-geral do Dnit Luiz Antônio Pagot e do ex-senador Cidinho Santos.
A possibilidade de uma mulher ocupar a vaga voltou a ganhar espaço nas discussões. Pivetta já havia demonstrado preferência por uma composição feminina antes de Fábio Garcia ser definido como vice.
PIVETTA NEGA RACHA
Depois de dois dias de reuniões e tensão dentro do grupo governista, Pivetta procurou afastar a interpretação de que a saída de Garcia representa um rompimento com Mauro Mendes ou com o União Brasil.
“Em nenhum momento ninguém levantou a voz”, afirmou.
Segundo ele, o recuo foi construído conjuntamente pelos partidos e representa uma mudança de estratégia eleitoral.
“É uma decisão serena do Fábio também. É um momento de dar um passo atrás para percorrer o mesmo caminho, com os mesmos objetivos que nós queremos, que é servir Mato Grosso, continuar implementando esse modelo de gestão de resultados que deu certo”, disse.
A declaração ocorre depois de uma segunda-feira marcada por intensas articulações. Pivetta chegou a convocar uma entrevista coletiva, que acabou cancelada, enquanto dirigentes do Republicanos, União Brasil e partidos aliados discutiam uma saída para o impasse.
Nesta terça-feira, a movimentação continuou no Palácio Paiaguás, com participação das principais lideranças do grupo.
Apesar da saída de Fábio, Pivetta deixou claro que pretende manter a aliança eleitoral com Mauro Mendes e reafirmou o ex-governador como seu principal candidato ao Senado.
“Eu continuo confiando no meu grupo. Eu continuo tendo como meu candidato a senador, primeiro, Mauro Mendes; segundo, Margareth. E nós vamos trabalhar para vencer essa eleição”, declarou.
Pivetta também vinculou sua candidatura à continuidade do modelo administrativo iniciado durante a gestão de Mendes.
“A obra, o modelo de gestão que nós implementamos em Mato Grosso continua e nós vamos aperfeiçoando esse modelo. Foi o Mauro Mendes que começou isso e trouxe até poucos dias. Eu estou levando, continuo”, afirmou.
“TENHO CERTEZA QUE SÃO INOCENTES”
Ao comentar a Operação Heritage, Pivetta demonstrou emoção e saiu em defesa de integrantes de seu grupo atingidos pela investigação.
“Não tem como não estar triste diante do que aconteceu. Estou triste porque eu conheço as pessoas que foram citadas aí. Muitos dos que eu conheço tenho certeza que são inocentes. O tempo vai mostrar isso e eles vão ter que se defender”, afirmou.
O governador também classificou como “inoportuno” o momento em que a operação foi deflagrada, diante da proximidade com o início da campanha eleitoral.
“Infelizmente essa operação veio num momento, na minha opinião, inoportuno, em tempo da política, e misturou tudo. Então, eu estou triste pelos meus amigos, pelas pessoas que eu confio”, declarou.
Pivetta afirmou ainda não ser possível dimensionar eventual prejuízo eleitoral decorrente da investigação, mas acusou adversários de explorarem politicamente o episódio.
“Eu não posso precisar se tem dano ou não. Me parece que a oposição tirou todo o proveito possível de uma grande especulação que a gente não sabe o que tem de verdade nisso”, disse.
A afirmação de Pivetta sobre a inocência dos aliados representa sua avaliação pessoal. A Operação Heritage está em fase de investigação e não há, neste momento, definição judicial sobre responsabilidade criminal dos investigados.
CAMPANHA SOB RESTRIÇÕES
A operação investiga circunstâncias relacionadas ao pagamento de R$ 308 milhões decorrente de acordo envolvendo o Governo de Mato Grosso e a Oi.
Entre os atingidos pelas medidas cautelares estão Mauro Mendes, Fábio Garcia e Mauro Carvalho, personagens que ocupavam posições importantes na estrutura política montada para a campanha.
A proibição de contato entre investigados ganhou dimensão eleitoral porque Mauro e Fábio estavam escalados para participar da mesma chapa majoritária.
Na decisão, Flávio Dino proibiu o contato entre os investigados, com exceção das comunicações estritamente familiares. No caso de Mauro Mendes e Fábio Garcia, não há exceção dessa natureza.
A ordem não proíbe expressamente que investigados estejam em um mesmo espaço público, mas a impossibilidade de comunicação poderia criar dificuldades em atos eleitorais, reuniões de coordenação, gravações e demais atividades de uma campanha conjunta.
Foi esse problema que Garcia apresentou publicamente como uma das razões para desistir da vice.
NOVO TABULEIRO
A volta de Fábio Garcia à eleição para deputado federal também altera novamente a chapa proporcional do União Brasil.
O deputado já pretendia disputar a reeleição antes de ser escolhido para a vice de Pivetta. Agora retorna à disputa por uma das oito cadeiras de Mato Grosso na Câmara Federal.
A mudança aumenta a concorrência dentro do próprio campo governista. Entre os nomes que também buscam espaço na chapa está Virginia Mendes, mulher do ex-governador Mauro Mendes e candidata a deputada federal.
Enquanto o União Brasil terá de reorganizar sua disputa proporcional, Pivetta corre contra o relógio para solucionar a composição majoritária.
A ex-prefeita de Sinop Rosana Martinelli esteve reunida com o governador nesta terça-feira. Pivetta confirmou a aproximação política, mas não vinculou o encontro à escolha do vice.
“A Rosana esteve comigo. Rosana Martinelli é uma liderança de Sinop, ex-prefeita de Sinop, importantíssima, e alinhamos o futuro juntos. Ela vai trabalhar junto conosco e fiquei muito honrado com ela”, afirmou.
Com a desistência de Fábio, Pivetta procura agora encerrar rapidamente a crise que atingiu sua chapa a poucos dias do início oficial da campanha. Publicamente, preserva Mauro Mendes e os demais aliados e nega qualquer rompimento. Nos bastidores, porém, precisa reconstruir uma composição que havia levado semanas para ser fechada.
A primeira decisão já foi tomada: Fábio Garcia volta à disputa pela Câmara. A segunda, segundo Pivetta, será conhecida até o fim desta terça-feira, quando pretende anunciar quem ocupará a vaga de vice.

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