Operação redesenha alianças e vira eixo da campanha em Mato Grosso Caso Oi já causou troca de vice de Pivetta, aprofundou rompimento de Jayme e Mauro e abriu divergências até entre candidatos do PL
Menos de uma semana depois de ser deflagrada pela Polícia Federal, a Operação Heritage deixou de produzir efeitos apenas no campo policial e jurídico e passou a interferir diretamente na configuração da eleição de 2026, em Mato Grosso.
A investigação sobre o acordo de R$ 308 milhões, firmado entre o Governo do Estado e a Oi S.A., já provocou mudança na chapa que disputa o Palácio Paiaguás, aprofundou rupturas dentro do União Brasil, colocou o ex-governador e candidato ao Senado, Mauro Mendes (União), no centro dos ataques dos adversários e abriu divergências até entre candidatos que integram o mesmo campo político.
Na prática, a Heritage começa a funcionar como um divisor da campanha: há um cenário eleitoral antes e outro depois da operação, deflagrada no último dia 6.
O efeito mais concreto ocorreu na chapa do governador Otaviano Pivetta (Republicanos).
O deputado federal Fábio Garcia (União), que seria candidato a vice-governador, deixou a composição e decidiu disputar a reeleição à Câmara Federal.
O parlamentar está entre os investigados na Heritage.
Entre as medidas determinadas pelo ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), está a proibição de contato entre investigados, restrição que alcançou integrantes do mesmo grupo político e complicou a manutenção da composição eleitoral.
Com a saída de Garcia, Pivetta anunciou Gisela Simona (União) para a vice.
Ao apresentar a nova companheira de chapa, afirmou que a escolha foi pessoal, mas referendada pelas siglas que sustentam sua candidatura.
A substituição, realizada já com a campanha em processo de organização, tornou-se a demonstração mais evidente de que a operação da PF ultrapassou a esfera jurídica e alcançou a montagem das chapas.
RUPTURA NO UNIÃO - A Heritage também aprofundou uma crise que já existia dentro do União Brasil, desde a convenção que decidiu apoiar Pivetta e impediu a candidatura de Jayme Campos ao Governo.
Nesta quarta-feira (12), Jayme transformou o rompimento político com Mauro Mendes em confronto público.
Da tribuna do Senado, pediu desculpas aos mato-grossenses por ter apoiado Mendes nas eleições anteriores. E fez duras acusações contra a administração do antigo aliado.
A ofensiva ganhou peso porque partiu de um senador do mesmo partido de Mauro, e de um dos principais responsáveis pela construção de sua candidatura ao Governo, em 2018.
Jayme também cobrou investigações sobre outras áreas da administração estadual e afirmou ter solicitado à Controladoria-Geral da União uma auditoria na Secretaria de Estado de Saúde.
As declarações são acusações do senador e não significam que as irregularidades mencionadas por ele tenham sido comprovadas.
A ruptura pode produzir consequências eleitorais para além do discurso.
O deputado estadual Júlio Campos (União), irmão de Jayme, confirmou que pretende votar em Wellington Fagundes (PL) para governador, embora afirme que as regras de fidelidade partidária o impedem de fazer campanha aberta para um candidato adversário da coligação de sua legenda.
Para o Senado, Júlio já declarou apoio a Janaina Riva (MDB) e afirmou que não votará em Mauro Mendes.
Segundo ele, amigos e apoiadores ligados ao seu grupo político também deverão seguir caminho semelhante.
O movimento expõe um problema adicional para a chapa governista: Pivetta precisa manter formalmente o União Brasil em sua coligação, enquanto parte de suas principais lideranças declara voto em seu adversário.
MAURO VIRA ALVO CENTRAL - Se Pivetta sofre os efeitos sobre a composição de sua chapa, Mauro Mendes passou a enfrentar a transformação da Heritage em um dos principais temas da disputa pelas duas vagas ao Senado.
Mauro sustenta que a operação possui componente eleitoral e classificou a ação como uma “armação eleitoreira”, afirmando que adversários teriam atuado para provocar a investigação às vésperas da eleição.
Os adversários passaram a responder diretamente a essa narrativa.
Wellington Fagundes afirmou, no Senado, que não se pode impedir uma investigação pelo fato de o país estar em período eleitoral, e rejeitou a tese de influência política na deflagração da Heritage.
Também disse ter procurado o procurador-geral da República, Paulo Gonet, para cobrar celeridade nas apurações.
Carlos Fávaro (PSD), candidato à reeleição ao Senado, juntou-se às cobranças por aprofundamento das investigações.
Com isso, os três atuais senadores — Jayme, Wellington e Fávaro — passaram a pressionar publicamente por apuração do caso, que atinge o candidato Mauro Mendes.
A consequência é uma inversão importante na campanha.
Antes da operação, os candidatos ao Senado precisavam construir agendas próprias para disputar espaço com Mauro.
Agora, a Heritage fornece aos adversários um tema comum de enfrentamento ao ex-governador.
DIVERGÊNCIA CHEGA AO PL - Os efeitos da operação também produziram uma situação incomum dentro do PL.
O deputado federal José Medeiros, candidato ao Senado, defendeu que operações policiais contra candidatos não fossem realizadas nos seis meses anteriores à eleição.
Ao comentar a Heritage, argumentou que ações desse tipo durante a campanha podem atingir não apenas o investigado, mas todas as candidaturas ligadas ao mesmo grupo político.
A posição encontrou resistência dentro do próprio partido.
Wellington criticou publicamente a ideia de impedir operações durante o período eleitoral.
Após a repercussão, a assessoria de Medeiros informou que o deputado desistiu de apresentar o projeto.
A divergência é particularmente significativa porque Wellington e Medeiros pertencem ao PL e disputam cargos majoritários, mas passaram a defender posições diferentes sobre um dos assuntos que tende a acompanhar toda a campanha.
ELEIÇÃO SOB EFEITO DA INVESTIGAÇÃO - A dimensão eleitoral da Operação Heritage não significa, contudo, antecipação de culpa.
A Polícia Federal investiga a movimentação dos recursos decorrentes do acordo firmado entre o Estado e a telefônica Oi e apura se houve utilização de fundos e empresas para ocultar ou dissimular a origem, circulação e destino do dinheiro.
Foram cumpridos 25 mandados de busca e apreensão e determinadas medidas como bloqueio de até R$ 316 milhões, quebra de sigilos, recolhimento de passaportes e restrições de contato entre investigados.
Até o momento, não há decisão judicial reconhecendo a prática dos crimes investigados pelos alvos da operação.
Politicamente, entretanto, os efeitos já são objetivos.
Uma candidatura a vice foi retirada. Uma nova vice precisou ser escolhida.
Um dos principais líderes do União Brasil rompeu publicamente com o candidato ao Senado do próprio partido.
Dissidentes passaram a anunciar voto em adversários.
Candidatos ao Senado incorporaram a investigação aos discursos, e integrantes do PL divergiram sobre os limites de operações policiais em ano eleitoral.
Por isso, independentemente do resultado futuro da investigação, a Operação Heritage já alterou a campanha de 2026, em Mato Grosso.
A partir de agora, o desafio de Mauro Mendes será impedir que o Caso Oi domine sua candidatura ao Senado.
Para Pivetta, será preservar uma aliança atingida simultaneamente pela operação e pelo racha no União Brasil.
Para os adversários, a questão será transformar o desgaste do grupo governista em votos sem ultrapassar a fronteira entre a cobrança por investigação e a exploração eleitoral de fatos ainda sob apuração.
A Heritage, que começou como uma investigação sobre o caminho de R$ 308 milhões, tornou-se assim um dos principais eixos em torno dos quais a eleição mato-grossense começa a se reorganizar.

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