Repórter News - www.reporternews.com.br
Cidades/Geral
Sexta - 28 de Agosto de 2026 às 16:28
Por: Ana Beatriz Goveia/Gazeta Digital

    Imprimir


Bancário há 17 anos e atualmente afastado pelo Instituto Nacional de Seguro Social (INSS), Ricardo Holetz, 39, sofre de Neuropatia Trigêmea, uma das sequelas da Hanseníase. Diante do cenário, ele criou a “vaquinha” online para arcar com as despesas da terapia que ameniza os efeitos da doença. Apesar de o tratamento para hanseníase ser oferecido pelo Sistema Único de Saúde (SUS), as despesas para atenuar as sequelas são altas e não são cobertas pelo sistema de saúde pública.

Atualmente, Ricardo faz uso de morfina em grandes quantidades, além de tratamentos alternativos e consultas com diversos profissionais.

Em entrevista ao Gazeta Digital, Ricardo relata que tudo começou há aproximadamente sete anos, com uma dor no lado direito do rosto que ninguém conseguia explicar. Com o tempo, o sintoma evoluiu para uma queimação e logo vieram outros sintomas: câimbras, formigamentos, dormências e sensações estranhas pelo corpo. Mesmo passando por vários profissionais, nenhum deles conseguiu relacionar todas as queixas. Foi então que uma colega de trabalho ouviu Ricardo e mencionou a possibilidade de hanseníase. Logo, o bancário procurou por um especialista e, após uma longa investigação, veio o diagnóstico.

Ricardo fez um ano de poliquimioterapia, disponibilizada pelo SUS. O tratamento combina vários remédios diferentes para combater a doença de forma mais forte e segura. Sua maior dificuldade, no entanto, sempre foi outra: controlar a dor e entender o que havia acontecido com seus nervos.

“No meu caso, a dor facial evoluiu para um quadro de queimação extrema, principalmente dentro do nariz e no rosto. Uma dor incomum e difícil de controlar, que não encontrava uma resposta simples nos tratamentos convencionais. E a dor não espera. Ela não espera você ter dinheiro. Não espera uma consulta disponível. Não espera a autorização de um plano de saúde. Não espera o resultado de um exame”, relata.

Ao longo do processo, Ricardo precisou buscar diferentes alternativas para controlar a dor causada pela neuropatia trigêmea pós-hanseníase. Fez bloqueios anestésicos, tratamento para dor neuropática e tentou diferentes medicamentos, inclusive antidepressivos usados no controle da dor, além de canabidiol. Depois de avaliar o quadro, Ricardo entrou novamente em uma fase de tratamento medicamentoso como parte de uma estratégia individualizada definida pela equipe médica. O objetivo é observar se existe a possibilidade de controlar o processo relacionado ao quadro e, principalmente, avaliar se é possível obter alguma melhora.

Da necessidade de custear consultas, exames e tratamentos para dor nasceu a “vaquinha” online, em que Ricardo já arrecadou cerca de R$ 15 mil, metade da meta de R$ 30. Além de utilizar o site “vakinha.com.br”, Ricardo Holetz também usa seu perfil no Instagram (@ricardoholetz) como ferramenta de conscientização sobre a hanseníase e espera que sua história ajude outras pessoas a perceberem que a doença ainda afeta a população e que as consequências do diagnóstico tardio podem ser profundas e devastadoras.

“Precisei procurar médicos, fazer exames, buscar outras opiniões e tentar tratamentos. E isso tudo trouxe custos que, mesmo trabalhando há 17 anos, sendo pai de família e tendo construído uma vida, se tornaram muito difíceis de suportar sozinho. A vaquinha não nasceu porque eu quis transformar minha doença em espetáculo ou porque esperei que alguém viesse resolver a minha vida. Pelo contrário. Ela nasceu porque eu fiz tudo o que estava ao meu alcance e, mesmo assim, cheguei a um ponto em que precisei pedir ajuda para continuar”, explica.

A hanseníase ainda é uma realidade que está longe de ser apenas uma doença do passado. Em 2024, foram registrados mais de 22 mil casos novos no país, e o Brasil permanece como o segundo país do mundo em número de novos diagnósticos, atrás apenas da Índia. Índia, Brasil e Indonésia concentraram quase 80% dos novos casos registrados globalmente. Entre 2015 e 2024, o Brasil reportou mais de 301 mil casos de hanseníase.

O cenário é ainda mais preocupante porque a doença pode permanecer por anos sem diagnóstico. Quando isso acontece, aumenta o risco de comprometimento dos nervos, incapacidades físicas e outras sequelas. Por isso, embora a hanseníase tenha tratamento e cura, o diagnóstico precoce continua sendo essencial para evitar consequências que podem permanecer mesmo após a eliminação da infecção.

Mato Grosso ocupa uma posição particularmente preocupante nesse cenário. O estado está entre as áreas brasileiras de maior endemicidade. Em 2024, foram registrados 4.674 novos casos em Mato Grosso, um número extremamente elevado para uma única unidade da Federação e que demonstra a dimensão da circulação da doença no estado.

As doações podem ser realizadas via PIX pela chave 6044152@vakinha.com.br.





Comentários

Deixe seu Comentário

URL Fonte: https://www.reporternews.com.br/noticia/473766/visualizar/