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Opinião
Terça - 03 de Março de 2026 às 00:02
Por: Mariana Ramos

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Março Amarelo é o mês de conscientização sobre a endometriose, uma condição que afeta milhões de mulheres em idade reprodutiva (estima-se cerca de 10% das mulheres em idade reprodutiva no mundo) e que ainda é marcada por diagnóstico tardio e sofrimento silencioso. Embora tradicionalmente associada à ginecologia, a endometriose é uma doença complexa, sistêmica e profundamente relacionada ao sistema hormonal, o que torna a endocrinologia peça fundamental no seu entendimento e manejo.


A endometriose ocorre quando tecido semelhante ao endométrio, que normalmente reveste o interior do útero, passa a se desenvolver fora dele, podendo atingir ovários, trompas, intestino, bexiga e outras estruturas da pelve. Esse tecido ectópico responde aos estímulos hormonais do ciclo menstrual, especialmente ao estrogênio, promovendo inflamação, dor e, em muitos casos, infertilidade.
Do ponto de vista endocrinológico, a endometriose é frequentemente classificada como uma doença estrogênio-dependente. Isso significa que o hormônio estrogênio desempenha papel central na manutenção e progressão das lesões. O estrogênio estimula a proliferação do tecido endometriótico e contribui para o ambiente inflamatório característico da doença.


Além disso, há evidências de alterações na resposta hormonal dessas pacientes, incluindo a chamada resistência à progesterona, hormônio que normalmente ajuda a equilibrar a ação do estrogênio no organismo. Na endometriose, o tecido pode não responder adequadamente a essa proteção natural, favorecendo a manutenção das lesões. Esses desequilíbrios ajudam a explicar por que a endometriose vai além de uma simples condição ginecológica e deve ser compreendida como uma doença que envolve mecanismos hormonais, inflamatórios e imunológicos complexos.


Os sintomas mais comuns incluem cólicas menstruais intensas e incapacitantes, dor pélvica crônica, dor durante a relação sexual, alterações intestinais no período menstrual e dificuldade para engravidar. No entanto, a intensidade da dor nem sempre está relacionada ao grau da doença, o que contribui para a demora no diagnóstico, que pode levar anos.


O tratamento da endometriose muitas vezes envolve estratégias hormonais que visam reduzir ou bloquear a ação do estrogênio, promovendo controle dos sintomas e supressão da atividade das lesões. Entre as abordagens estão anticoncepcionais hormonais combinados, progestagênios isolados e outras terapias que modulam a produção hormonal. Em casos específicos, pode ser necessária intervenção cirúrgica, especialmente quando há dor refratária ao tratamento clínico, infertilidade associada ou comprometimento de órgãos.


É nesse contexto que a endocrinologia tem papel essencial, tanto na avaliação global da paciente quanto na individualização do tratamento hormonal especialmente em casos com comorbidades metabólicas, alterações tireoidianas, síndrome dos ovários policísticos ou transição menopausal. A análise cuidadosa do perfil hormonal, das fases da vida da mulher e de possíveis doenças associadas, como distúrbios da tireoide ou alterações metabólicas, permite abordagem mais abrangente e integrada.


A endometriose não é apenas uma “cólica forte”. Trata-se de uma condição crônica, inflamatória e hormônio-dependente que impacta qualidade de vida, saúde mental, produtividade e fertilidade. Reconhecer sua natureza hormonal e multifatorial é fundamental para ampliar a compreensão da doença e oferecer tratamento mais eficaz e multidisciplinar.
Durante o Março Amarelo, a informação é uma das principais ferramentas de combate ao sofrimento silencioso. Buscar avaliação especializada diante de sintomas persistentes é um passo importante para diagnóstico precoce e melhor controle da doença.

Dra. Mariana Ramos é endocrinologista na Fetal Care, em Cuiabá-MT.



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