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Opinião
Domingo - 23 de Agosto de 2026 às 00:00
Por: Márcio Florestan Berestinas

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A morte não admite negociação. Quem estava à mesa ontem deixa uma cadeira vazia; o telefone continua guardando mensagens que já não terão resposta; a voz permanece em algum áudio de WhatsApp, embora a pessoa que a produziu tenha desaparecido. A religião oferece respostas para o que vem depois. A fé, para muita gente, ajuda a sustentar a travessia. Mas quem fica continua lidando com coisas muito concretas: o quarto intacto, um perfume conhecido numa roupa, a vontade automática de contar alguma coisa a quem já não está.

Ao longo do tempo, a humanidade inventou inúmeras maneiras de conservar os mortos entre os vivos. Fotografias, cartas, túmulos, retratos, objetos que ninguém tem coragem de jogar fora. Em Proust, o sabor de uma madeleine basta para fazer reaparecer um mundo perdido. Agora, porém, a tecnologia permite algo diferente. A Inteligência Artificial começa a tornar possível que uma fotografia se mova, que uma voz volte a falar e, mais inquietante ainda, que uma representação digital de alguém morto responda a perguntas que nunca lhe foram feitas.

Em setembro de 2025, a Reuters contou a história do brasileiro Diego Felix Dos Santos, então com 39 anos e residente em Edimburgo, na Escócia. O pai havia morrido inesperadamente no ano anterior. Diego utilizou no ElevenLabs uma mensagem de voz que recebera dele quando estava no hospital e conseguiu gerar novas mensagens com a voz paterna, numa tentativa de recuperar algo das conversas semanais que mantinham. À Reuters, deixou claro que sabia que a tecnologia não poderia trazer o pai de volta. Queria apenas recuperar, por alguns instantes, algo da sensação daqueles encontros.

O que impressiona é a simplicidade. Não estamos falando de uma máquina concebida pela ficção científica nem de uma promessa para daqui a cinquenta anos. Bastaram uma gravação guardada e ferramentas que já existem.


Algumas empresas estrangeiras oferecem serviços concebidos especificamente para essa finalidade. O HereAfter AI, por exemplo, permite que uma pessoa grave, ainda em vida, histórias e lembranças que depois podem ser acessadas por familiares. Esse modelo me causa menos estranhamento. Ele se aproxima de um arquivo familiar interativo: em vez de abrir uma caixa de cartas do avô, o neto pergunta como ele conheceu a avó e escuta a história na própria voz dele.

A situação muda quando o sistema deixa de recuperar aquilo que foi efetivamente registrado e passa a criar. Os chamados griefbots, deadbots ou avatares póstumos podem ser alimentados com mensagens, fotografias, vídeos e gravações. A partir desse material, imitam características da pessoa morta e produzem respostas inéditas. Podem reagir a acontecimentos posteriores à morte, responder a perguntas novas e até oferecer conselhos.

É difícil olhar para isso sem algum desconforto, mas o desconforto, por si só, não é argumento suficiente para proibir nada. Nossa relação com os mortos sempre foi mais complexa do que a ideia de simplesmente “deixar ir” sugere. Alguém ainda pensa no que a mãe diria em determinada situação; outro prepara o prato que o pai fazia aos domingos; há quem converse mentalmente com a esposa falecida enquanto dirige.

A literatura psicológica chama esse fenômeno de continuing bonds, ou vínculos continuados. Uma revisão sistemática de Helen Hewson, Niall Galbraith, Claire Jones e Gemma Heath reuniu 79 estudos e encontrou uma realidade ambígua: esses vínculos podem estar associados tanto a conforto quanto a sofrimento. Manter alguma forma de relação interior com quem morreu não significa, necessariamente, fracasso na elaboração do luto.

A dificuldade começa quando esse diálogo interior ganha um interlocutor externo capaz de improvisar. Uma carta não muda de conteúdo porque estamos mais tristes naquele dia. Uma gravação conserva o que foi dito. O avatar, ao contrário, pode produzir uma frase que o morto jamais pronunciou e fazê-la soar compatível com sua voz, seu jeito e suas lembranças.

É plausível imaginar que, sobretudo nos primeiros tempos do luto, uma experiência assim possa proporcionar algum alívio. Uma morte súbita interrompe conversas, deixa perguntas sem resposta, pedidos de desculpa, palavras que pareciam poder esperar. É possível que ouvir de novo uma voz conhecida atenue por alguns minutos aquela sensação física de ausência que acompanha certas perdas.

Mas daí a afirmar que esses sistemas tratam o luto ou previnem depressão há uma distância considerável. Uma revisão sistemática publicada em 2026 no Computers in Human Behavior Reports examinou 30 estudos sobre tecnologias digitais usadas no luto e encontrou possíveis benefícios, inclusive redução de sintomas de luto e depressão. O conjunto, porém, reunia psicoterapia on-line, grupos de apoio, memoriais, realidade virtual, chatbots e outras ferramentas. Não se pode transportar esses resultados para um avatar que imita o pai, a mãe ou um filho morto. Ainda não há evidência clínica sólida de que griefbots, especificamente, previnam depressão ou transtorno do luto prolongado.

Talvez nunca exista uma resposta única. Para uma pessoa, ouvir a voz de quem morreu pode funcionar como lembrança serena; para outra, pode adiar o confronto com a ausência. O luto não obedece a um roteiro limpo. Às vezes parece recuar e, semanas depois, um cheiro, uma música ou uma frase devolvem tudo com força.

Há um risco que me inquieta ainda mais do que a dependência emocional: a alteração da memória.

Yifan Li e Xingyu Lan, da Universidade Fudan, entrevistaram em profundidade 26 usuários de deadbots. Os participantes relataram que esses sistemas podiam oferecer um espaço privado para lidar com sentimentos e assuntos não resolvidos. Os pesquisadores também observaram, contudo, que recordações autênticas podiam começar a se misturar a conteúdos gerados pela Inteligência Artificial. É um estudo qualitativo pequeno, não prova clínica de dano, mas a hipótese merece atenção.

A memória humana já é imperfeita. Confundimos datas, reconstruímos cenas, atribuímos frases a pessoas erradas. Acrescentemos a isso anos de conversas com uma representação convincente de alguém morto. Um filho pode passar dez anos conversando com um avatar do pai e, em algum momento, recordar um conselho: “Meu pai sempre dizia isso”. Só que o pai nunca disse. A frase nasceu depois de sua morte, produzida por um sistema treinado para parecer com ele. Preservar a memória começa, então, a se confundir com reescrevê-la.

Ainda assim, sou favorável à possibilidade de uso, desde que submetida a limites claros. O primeiro é o consentimento. Quem quiser deixar aos filhos sua voz, suas histórias ou mesmo uma representação digital deveria poder fazê-lo. Muito mais difícil é admitir que terceiros reconstruam uma personalidade inteira depois da morte sem autorização. Ter fotografias, mensagens e gravações de alguém não equivale a possuir o direito de fabricar novas opiniões em seu nome.

Também é indispensável distinguir o que é registro do que é criação algorítmica. Uma plataforma poderia informar que determinada resposta utiliza uma gravação feita em vida. Outra coisa é gerar uma fala inédita e apresentá-la como se viesse daquela pessoa.

Há ainda o dinheiro. O luto deixa as pessoas especialmente vulneráveis, e essa vulnerabilidade pode ser explorada. Não é difícil imaginar uma notificação dizendo “seu pai tem algo para lhe dizer” para estimular a renovação de uma assinatura. Ou um avatar usado para recomendar produtos. Tomasz Hollanek e Katarzyna Nowaczyk-Basińska já discutiram riscos desse tipo e defenderam consentimento, transparência e mecanismos para encerrar definitivamente o uso desses avatares.

Esse último ponto é importante. Quem utiliza uma representação digital deve poder apagá-la, suspender mensagens, eliminar dados e terminar aquela relação. Pode parecer estranho falar em uma segunda despedida. Mas pode ser exatamente isso.

No Brasil, a discussão jurídica também começou. Em 2024, Mikhail Vieira de Lorenzi Cancelier e Gabriele Aparecida de Souza e Souza publicaram o artigo “Ressurreição digital: implicações da técnica sobre a personalidade humana”, examinando os problemas que conteúdos póstumos produzidos por IA criam para os direitos da personalidade e o direito sucessório. Ainda não se consolidou por aqui uma indústria de avatares póstumos semelhante à que aparece em alguns países no exterior, mas as ferramentas atravessam fronteiras sem dificuldade.

Não me convence a ideia de proibir tudo porque a tecnologia toca numa região íntima demais. Um homem com uma doença incurável pode querer gravar histórias para uma filha pequena. Uma avó pode desejar deixar sua voz aos bisnetos. Há beleza nisso, e negar essa possibilidade em nome de uma ideia abstrata de “aceitação da morte” me parece tão excessivo quanto entregar o luto ao mercado sem qualquer regra.

O ponto difícil está em saber quando ainda estamos preservando uma memória e quando começamos a fabricar uma pessoa.

A melhor versão dessa tecnologia talvez seja menos ambiciosa do que prometem algumas empresas. Não uma ressurreição digital, mas uma memória interativa: construída preferencialmente com consentimento em vida, sustentada por relatos e gravações autênticos, transparente sempre que a Inteligência Artificial criar alguma coisa, sem publicidade, sem mecanismos de dependência e com a possibilidade de desaparecer quando o usuário quiser.

A morte continuará deixando cadeiras vazias. Nenhum sistema conseguirá mudar isso, e talvez nem deva tentar. Mas sempre procuramos maneiras de manter perto aquilo que perdemos. Guardamos bilhetes, vozes, fotografias, receitas, roupas, gestos. A Inteligência Artificial acrescenta uma possibilidade nova a esse inventário antigo: pela primeira vez, a lembrança pode responder.

É justamente por isso que teremos de aprender a desconfiar dela.

Márcio Florestan Berestinas é promotor de Justiça.



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