Celular de advogado assassinado expõe diálogos sobre influência em decisão no TJMT Conversas apontam tentativa de intermediação para concessão de efeito suspensivo em processo que tramitava no Tribunal de Justiça de Mato Grosso.
Mensagens encontradas no celular do advogado Roberto Zampieri, assassinado a tiros em Cuiabá em dezembro de 2023, passaram a integrar investigações que apuram possível interferência em decisões judiciais no Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT). O conteúdo foi analisado pela Polícia Federal e encaminhado ao Conselho Nacional de Justiça (CNJ).
De acordo com informações apresentadas ao CNJ, os dados extraídos do aparelho revelam diálogos entre Zampieri e o advogado Bruno Oliveira Castro, nos quais é mencionada a tentativa de obter a concessão de efeito suspensivo em um recurso de apelação que tramitava no tribunal.
Roberto Zampieri foi morto a tiros na capital em 2023. Foto: DivulgaçãoSegundo o relatório, em 27 de setembro de 2023, Bruno Castro teria pedido a Zampieri que intermediasse a concessão da medida judicial, apesar de o advogado não atuar formalmente no processo.
O caso envolve uma disputa judicial em que a empresa Passe Intermediações de Negócios Ltda. buscava reformar decisão da 11ª Vara Cível de Cuiabá, que havia reconhecido a inexistência de título executivo extrajudicial com requisitos de liquidez, certeza e exigibilidade. Com isso, a ação de execução foi extinta e a empresa condenada ao pagamento de custas e honorários.
Após a interposição do recurso de apelação, o pedido de efeito suspensivo foi analisado no Tribunal de Justiça. Conforme apontado pela Corregedoria, o benefício acabou sendo concedido no dia seguinte, em decisão proferida pelo desembargador Dirceu dos Santos.
Para o CNJ, esse é um dos episódios identificados a partir da análise do material extraído do celular do advogado, que reúne uma série de conversas e documentos que passaram a ser examinados no âmbito de procedimentos disciplinares.
Celular como peça central
O celular de Roberto Zampieri foi apreendido pelas autoridades no local do crime e submetido à extração de dados por peritos da Polícia Federal. O conteúdo foi posteriormente compartilhado com o CNJ para subsidiar investigações relacionadas a possíveis irregularidades envolvendo processos judiciais em Mato Grosso.
Durante a sessão do Conselho, o conselheiro Ulysses Rabaneda declarou impedimento para participar da análise do caso. Ele explicou que, antes de assumir o cargo no CNJ, participou de discussões no Conselho Federal da OAB sobre a preservação do sigilo profissional entre advogado e cliente em relação ao conteúdo do aparelho.
A análise do material segue em andamento e pode embasar novas apurações sobre eventuais irregularidades no âmbito do Judiciário mato-grossense. Confira o momento em que o relatório é lido durante a sessão:
Caso Zampieri
O advogado Roberto Zampieri foi morto com 10 tiros, no dia 5 de dezembro de 2023, no bairro Bosque da Saúde, em Cuiabá. No local, os investigadores apreenderam o celular do advogado, e durante a perícia, foram identificadas mensagens, documentos e diálogos com empresários, advogados e magistrados. Parte do conteúdo indicaria que Zampieri atuava como intermediador em disputas judiciais, especialmente em processos que tramitavam no Tribunal de Justiça de Mato Grosso.
No dia 1° de agosto de 2024, a Corregedoria Nacional de Justiça determinou o afastamento dos desembargadores Sebastião de Moraes Filho e João Ferreira Filho das funções no TJMT (Tribunal de Justiça do Estado de Mato Grosso), sob suspeita do envolvimento deles em vendas de decisões judiciais.
Em maio de 2025, o juiz Ivan Lúcio Amarante foi afastado das suas funções na 2ª Vara de Vila Rica (MT), quando foi alvo da Polícia Federal nesta quinta-feira (29). Ele estava sendo investigado pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) por suspeita de venda de sentenças.
Já no dia 26 de junho de 2025, foram afastados das funções a juíza Tatiana dos Santos Batista, da Comarca de Vila Bela da Santíssima Trindade, e o juiz Renato José de Almeida Costa Filho, de Chapada dos Guimarães, por indícios de conduta irregular.
Outro desembargador afastado foi Dirceu dos Santos, que deixou o cargo no TJMT afastado nessa segunda-feira (2), por supostamente emitir decisões mediante recebimento de vantagens por intermédio de empresários e advogados.

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