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Saúde
Sábado - 05 de Junho de 2004 às 12:58

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Já era fato estabelecido pela ciência --com a ajuda de camundongos-- que comer menos pode prolongar a vida. Pesquisadores americanos conseguiram agora, efetivamente, desvendar a ligação bioquímica entre os processos de alimentação e envelhecimento. E prometem para daqui a cinco ou dez anos uma droga que pode unir o útil ao agradável: emagrecer e viver mais.

A equipe do biólogo Leonard Guarente, do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts, nos EUA), pesquisou roedores e desvendou o funcionamento de um gene chamado Sirt1 (abreviação de sirtuína-1), revelado como um mediador dos efeitos de prolongamento da vida trazidos pela restrição calórica. Segundo o cientista, a descoberta do mecanismo pode levar à produção de um remédio que impeça a deposição de gordura e traga longevidade.

"Esse é o único mecanismo conhecido até agora que liga os mecanismos de restrição calórica e envelhecimento. Não sabemos ainda se é o único que existe, mas já é um bom ponto de partida", diz Guarente à Folha. "Sabemos que se aplica aos camundongos e que deve se aplicar aos humanos também, já que todos os mamíferos parecem ter um gene semelhante. Mas não sabemos ainda as particularidades do funcionamento desse gene nas pessoas."

A pesquisa de Guarente, publicada na última edição da revista "Nature" (www.nature.com), é baseada no que acontece quando os roedores são submetidos a uma dieta de poucas calorias.

Quando isso ocorre, a proteína especificada pelo gene Sirt1 "desliga" o funcionamento de genes relacionados ao regulador de gordura conhecido como PPAR-gama. Com isso, não só o depósito de gordura é impedido como a queima de tecidos adiposos é acelerada. Resultado: os camundongos passam a viver mais e a desenvolver menos doenças típicas da velhice, como arteriosclerose, diabetes e câncer.

Já se sabia que a restrição calórica funcionava nos camundongos, suprimindo a grande maioria das mudanças na atividade genética ligadas à idade, o que sugeria que uma dieta draconiana provoca uma "reforma" metabólica que imita muitas das características da juventude. No entanto, o grande número de genes envolvidos nesse processo desanimaria qualquer empresa farmacêutica interessada em produzir artificialmente esses efeitos.

O Sirt1 trouxe a corrida pelo "elixir da vida" de volta ao jogo, já que funciona como uma espécie de desencadeador de um processo complexo que rapidamente se espalha pelo corpo e impede a deposição de gordura. O futuro medicamento, pelo qual Guarente já trabalha quase em período integral, seria algo que estimulasse o Sirt1 a funcionar mais.

"Estamos ainda observando os camundongos para ver se conseguimos um bom remédio, mas também já fazemos pesquisas com outros primatas que não o homem. É o segundo passo para um remédio", diz Guarente. Para quando? "Pode ser que aconteça antes, mas uma resposta responsável para essa pergunta seria algo entre cinco e dez anos."

O pesquisador já tinha descoberto que um gene de leveduras conhecido como SIR2, correspondente ao Sirt1 de camundongos e humanos, era responsável por regular a longevidade em fungos unicelulares. Para Guarente, a chave para a sonhada longa vida dos humanos pode ser também usar o gene de modo a emperrar a maquinaria do corpo responsável pela deposição de gordura.

Se a motivação para a pesquisa é pessoal? "Bem, na verdade, sim", diz Guarente, 51. "Sou magro, faço exercício e musculação. Mas acabo comendo muitas calorias, apesar de querer viver mais, como todo mundo. Talvez depois dessa pesquisa eu comece a comer diferente. As calorias fazem muita diferença nessa história", afirma.




Fonte: Folha Online

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